Crise do combustível atinge companhias aéreas das Américas

O aumento do preço do querosene de aviação está comprometendo as margens das companhias aéreas brasileiras, mesmo diante de uma demanda relativamente resiliente. No cenário internacional, a IATA reduziu de US$ 41 bilhões para US$ 23 bilhões sua previsão de lucro líquido global para 2026.

O forte aumento do preço do querosene de aviação (QAV) tornou-se um dos principais fatores de pressão sobre os resultados das companhias aéreas em 2026. No Brasil, Azul e GOL enfrentam um ambiente de custos elevados, que exige ajustes de capacidade, revisão das estratégias comerciais e maior atenção à preservação de caixa.

A situação acompanha uma tendência observada em outros mercados das Américas, onde empresas como Copa Airlines, American Airlines e Southwest Airlines também revisaram suas perspectivas de rentabilidade.

Embora a demanda por viagens continue relativamente sólida, o avanço das despesas operacionais está reduzindo a capacidade das empresas de transformar o crescimento das receitas em resultados financeiros positivos.

O cenário levou a Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) a reduzir sua estimativa de lucro líquido global do setor para US$ 23 bilhões em 2026, ante os US$ 41 bilhões previstos anteriormente.

Azul registra aumento de 61,8% no preço do combustível

Entre as companhias brasileiras, a Azul apresentou um dos exemplos mais expressivos do impacto do combustível sobre os resultados. No segundo trimestre de 2026, o preço médio pago pela empresa por litro de QAV subiu 61,8% em relação ao mesmo período de 2025, passando de R$ 3,86 para R$ 6,25.

Mesmo com uma redução no consumo, a despesa total com combustível aumentou 41,2%, alcançando R$ 1,96 bilhão. O EBITDA ajustado caiu 55,4%, passando de R$ 1,14 bilhão para R$ 510,1 milhões, enquanto a margem correspondente recuou de 23,1% para 10,2%.

A receita operacional permaneceu próxima de R$ 5 bilhões, com crescimento de apenas 0,7% na comparação anual. Diante desse cenário, a Azul reduziu sua capacidade total em 10,6% no trimestre. No mercado doméstico, o corte foi de 6,5%, enquanto a oferta internacional diminuiu 24,9%.

A estratégia buscou concentrar as operações em rotas com maior potencial de rentabilidade e preservar a liquidez da companhia. A empresa também aumentou as tarifas para compensar parte da elevação dos custos. O preço médio das passagens comercializadas avançou 9,5% em relação ao segundo trimestre de 2025.

Apesar dessas medidas, o encarecimento do combustível continuou exercendo pressão significativa sobre as margens.

GOL enfrenta custos maiores dentro do grupo Abra

A GOL também está exposta ao aumento dos preços do querosene. Desde sua reorganização societária, a avaliação dos resultados financeiros da companhia deve considerar também as informações consolidadas do Abra Group, controlador de GOL e Avianca.

No segundo trimestre de 2026, o grupo registrou receita operacional de aproximadamente US$ 2,6 bilhões, crescimento de 17,7% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Entretanto, a expansão da receita não foi suficiente para impedir a deterioração dos resultados operacionais ajustados. O EBITDAR ajustado recuou 61,7%, para US$ 195 milhões, enquanto a margem correspondente diminuiu de 23,1% para 7,5%.

A despesa consolidada com combustível chegou a aproximadamente US$ 984 milhões, aumento de 80,2% na comparação anual. Segundo o grupo, as medidas comerciais e operacionais permitiram recuperar cerca de 49% do aumento dos custos com combustível durante o trimestre.

A estratégia incluiu mecanismos de proteção contra oscilações de preços, ajustes na oferta de voos, iniciativas de eficiência e ações para recuperar parte dos gastos por meio das receitas. O grupo informou ainda ter obtido US$ 70 milhões em economia de custos e US$ 75 milhões em sinergias adicionais. 

Governo brasileiro adota medidas de apoio ao setor

O impacto do combustível também levou o governo federal a anunciar medidas emergenciais para reduzir a pressão financeira sobre as companhias aéreas e preservar a oferta de voos.

Em abril, os ministérios de Portos e Aeroportos e da Fazenda apresentaram um conjunto de iniciativas que incluiu linhas de financiamento, redução de tributos e flexibilização de prazos de pagamento.

Entre as medidas anunciadas estava uma linha de financiamento por meio do Fundo Nacional de Aviação Civil (Fnac), voltada à compra de combustível, com limite de até R$ 2,5 bilhões por companhia.

Também foi estruturada uma linha de crédito de R$ 1 bilhão para capital de giro, além da redução a zero das alíquotas de PIS/Cofins incidentes sobre o querosene de aviação.

Em junho, o Ministério de Portos e Aeroportos informou a contratação de R$ 661 milhões em financiamentos destinados a aliviar as necessidades de caixa de quatro empresas aéreas.

GOL e Azul contrataram R$ 330 milhões cada, enquanto as companhias regionais Abaeté e Rima também tiveram acesso aos recursos. O governo justificou as medidas pela necessidade de limitar os efeitos do aumento internacional do combustível sobre a conectividade e o preço das passagens.

Reajustes da Petrobras ampliam a pressão

O mercado brasileiro também acompanha as atualizações dos preços praticados pela Petrobras para o querosene de aviação. Em setembro, a estatal anunciou um reajuste médio de 13,9%, equivalente a um aumento de aproximadamente R$ 0,68 por litro.

Com a atualização, os preços de venda nas refinarias passaram a variar entre R$ 5,44 e R$ 5,70 por litro, conforme a localidade. A Petrobras relacionou o reajuste aos efeitos do conflito no Oriente Médio sobre o mercado internacional de petróleo e a logística do setor.

Como o QAV representa uma parcela relevante das despesas das empresas aéreas, alterações expressivas de preço podem afetar rapidamente os custos das operações. O impacto final sobre cada companhia, entretanto, depende de fatores como contratos de fornecimento, eficiência da frota, estrutura de rotas e estratégias de proteção financeira.

a do Brasil, a Copa Airlines oferece um exemplo claro de revisão das expectativas financeiras. A companhia panamenha havia iniciado 2026 com uma previsão de margem operacional entre 22% e 24%, mas reduziu essa estimativa para um intervalo entre 17% e 19% ao divulgar os resultados do segundo trimestre.

Apesar do crescimento de 25,7% na receita, a margem operacional trimestral caiu para 8,7%, frente a 21,8% no mesmo período de 2025. A empresa explicou que a venda antecipada de passagens limita a capacidade de repassar imediatamente os aumentos de custos aos consumidores.

O cenário brasileiro e latino-americano acompanha a deterioração das perspectivas da indústria aérea internacional. Segundo a IATA, o lucro líquido agregado das companhias aéreas deverá alcançar US$ 23 bilhões em 2026, aproximadamente metade dos US$ 45 bilhões estimados para 2025.

A IATA também alerta que a necessidade de preservar margens pode levar empresas a revisar rotas menos rentáveis e adotar decisões mais conservadoras sobre a expansão da capacidade.

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