ONU Turismo vê potencial para ampliar peso do setor no PIB brasileiro

Para Heitor Kadri, diretor regional da ONU Turismo para as Américas, o atual momento do setor pode impulsionar investimentos, sustentabilidade e maior integração continental.

O atual crescimento do turismo no Brasil pode abrir caminho para uma nova etapa de expansão sustentável da atividade no país. A avaliação é de Heitor Kadri, diretor do Escritório Regional da ONU Turismo para as Américas, em entrevista ao jornal econômico Valor, na sede regional da entidade, no Rio de Janeiro.

Atualmente, o turismo representa cerca de 8% do PIB nacional, segundo Kadri. Para o dirigente, o bom desempenho recente da atividade deve ser aproveitado para mobilizar governos, investidores e iniciativa privada em torno de uma agenda de crescimento estruturado, com foco em sustentabilidade, inovação, conectividade e atração de capital.

À frente do escritório regional da ONU Turismo para as Américas desde sua inauguração, em março do ano passado, no Rio de Janeiro, Kadri tem conduzido uma agenda voltada a fortalecer o papel do turismo como vetor de desenvolvimento econômico no Brasil e no continente.

A entidade também vem promovendo estudos sobre alternativas ao combustível tradicional de aviação, tema considerado estratégico para o futuro do setor. Segundo Kadri, países da região, especialmente o Brasil, podem se beneficiar da adoção de novas fontes energéticas.

“Vários países da região, em especial o Brasil, têm muito a ganhar com a adoção de fontes alternativas de combustíveis”, afirmou Kadri ao Valor. Ele destacou, no entanto, que a transição exige preparação do setor aéreo. “Sabemos que não é só apresentar combustíveis alternativos: temos também que preparar o setor da aviação. Estudos da ONU Turismo estimam que entre 35% e 40% dos gases de efeito estufa provêm do transporte aéreo.”

Outro ponto da agenda é a expansão, para a América do Sul, dos trabalhos do Centro Global de Resiliência e Gestão de Crises do Turismo. Fundado na Jamaica e apoiado pela ONU, o órgão atua em preparação, planejamento e recuperação diante de desastres naturais, um tema cada vez mais relevante para destinos expostos a eventos climáticos extremos.

A ONU Turismo também trabalha com países do Mercosul no desenvolvimento de produtos turísticos integrados, capazes de articular diferentes destinos e países em uma mesma experiência. Um dos exemplos é a Rota dos Jesuítas, iniciativa que busca mapear, organizar a comunicação e fortalecer a oferta turística vinculada ao patrimônio cultural jesuítico no Cone Sul, envolvendo países como Paraguai, Argentina, Brasil e Chile.

A gastronomia aparece como outro eixo promissor. A ideia é promover produtos regionais como vinho, café e erva-mate como elementos de atração turística. Segundo Kadri, a ONU Turismo lançará em agosto um guia de boas práticas em turismo gastronômico, voltado a orientar destinos e empresas sobre o potencial desse segmento.

Apesar do cenário positivo, o diretor reconhece desafios. Um dos principais é ampliar a atração de investimentos para o turismo. Para isso, o escritório regional trabalha na melhoria do ambiente de negócios na América Latina, incluindo a produção de 15 guias para as Américas com informações sobre abertura de empresas, incentivos fiscais, oportunidades de projetos e regras específicas de cada país.

A facilitação da circulação de pessoas é outro tema considerado prioritário. A ONU Turismo pretende trabalhar junto a governos para simplificar processos de emissão de vistos e apresentar experiências bem-sucedidas de países que adotaram isenções bilaterais. Esses temas deverão estar presentes na 3ª Cúpula da ONU Turismo para a África e as Américas, que será realizada no Brasil em 2027, no Rio de Janeiro. 

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