A decisão dos Estados Unidos tende a ampliar exigências de compliance e encarecer seguros, com potencial efeito indireto sobre tarifas e conectividade, avalia um especialista em Relações Internacionais. No turismo, o principal risco é reputacional.
A classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas pelos Estados Unidos pode produzir impactos que chegam ao turismo não pelo volume imediato de viajantes, mas por dois vetores que costumam decidir o apetite do mercado: percepção de risco e custo operacional. A análise é do especialista em Relações Internacionais Jorge Lasmar, que discutiu o tema em entrevista à CNN.
Segundo ele, a medida combina o rótulo político-jurídico de “terrorismo” com um regime de sanções e controles que tende a endurecer a forma como empresas e instituições estrangeiras avaliam parceiros no Brasil. Na prática, isso pode elevar o custo de fazer negócios e, por tabela, pressionar cadeias ligadas a viagens, como companhias aéreas, hotelaria, eventos e viagens corporativas, que dependem de pagamentos internacionais, seguros e padrões rígidos de conformidade.
Um efeito indireto relevante para o setor é o possível encarecimento de seguros associados a operações internacionais envolvendo o Brasil. Lasmar afirmou que, quando o risco sobe, o preço do seguro tende a acompanhar, e isso pode se refletir em custos que acabam chegando ao consumidor. Em turismo, esse tipo de pressão costuma aparecer em itens como tarifas, taxas, exigências adicionais para fornecedores e, em alguns casos, redução de oferta quando o ambiente fica menos previsível.
No plano reputacional, a preocupação central é a narrativa externa sobre segurança. Para o especialista, a mensagem que circula no mercado internacional pode ser a de um país com presença de grupos classificados como terroristas, o que tende a repercutir em decisões de viagem, especialmente em segmentos mais sensíveis a risco, como MICE (eventos e congressos), corporativo e grupos. O turismo de lazer costuma reagir de forma mais heterogênea, mas a construção de imagem pode afetar desde o interesse por destinos urbanos até a escolha de hubs de conexão.
Lasmar também apontou que a classificação pode alterar a dinâmica de cooperação internacional no combate ao crime, deslocando parte do tema para a esfera de defesa e inteligência dos EUA, com informações mais restritas. Em termos turísticos, mudanças nesse ecossistema costumam influenciar, indiretamente, a política de vistos, a fiscalização e a forma como o país é avaliado por grandes players globais.
Diante do quadro, o especialista defendeu que o caminho mais imediato é diplomático, mas observou que o Brasil precisará demonstrar medidas consistentes de enfrentamento ao crime para reduzir o risco de efeitos colaterais sobre setores expostos à confiança internacional. Para o turismo, o ponto de atenção é claro: em um mercado onde percepção e segurança são parte do “produto”, ruído reputacional pode custar caro.



