ACI Europe, Amadeus, IATA, IDEMIA Public Security e SITA criaram uma coalizão para promover um marco regulatório que permita ampliar o uso voluntário e seguro de dados biométricos no transporte. A iniciativa busca reduzir controles repetitivos, agilizar o fluxo nos aeroportos e responder ao crescimento global do número de passageiros.
A biometria ganha espaço como uma das principais ferramentas para transformar a experiência de viagem, mas sua expansão também abre um debate sobre privacidade, consentimento e regulamentação. Nesse contexto, cinco atores relevantes da indústria — ACI Europe, Amadeus, IATA, IDEMIA Public Security e SITA — anunciaram a criação da Responsible Biometrics Travel Industry Coalition, uma aliança que busca promover um modelo de uso responsável dessas tecnologias.
O foco inicial está na Europa, onde a coalizão pede aos reguladores que o chamado “Digital Omnibus” da União Europeia — um pacote de medidas digitais — permita o uso voluntário da biometria nas viagens sob regras claras, tecnologicamente neutras e compatíveis com elevados padrões de proteção de dados. O argumento central é que a eficiência operacional não deve avançar às custas da privacidade dos passageiros.
A verificação biométrica pode reduzir controles manuais de documentação, acelerar o processamento de passageiros e melhorar os fluxos nos terminais, especialmente em períodos de alta demanda. Também pode permitir que aeroportos e companhias aéreas aproveitem melhor a infraestrutura existente, uma questão cada vez mais relevante diante do crescimento projetado do tráfego aéreo.
O manifesto apresentado pela coalizão sustenta que o uso responsável da biometria deve se basear em escolha voluntária, consentimento explícito, privacidade e segurança desde a concepção, proporcionalidade, transparência e prestação de contas. Também defende que os passageiros que não desejarem utilizar essas soluções tenham acesso a alternativas não biométricas que sejam efetivamente funcionais.
A aceitação entre os viajantes já é significativa. Segundo a Pesquisa Global de Passageiros 2025 da IATA, citada pela coalizão, 74% dos entrevistados preferem utilizar biometria em vez de passaportes e cartões de embarque tradicionais, desde que existam garantias suficientes sobre a segurança de seus dados pessoais. Entre aqueles que já utilizaram essas tecnologias, o nível de satisfação chega a 86%. O debate ganha ainda mais relevância diante da pressão enfrentada pela infraestrutura aeroportuária. Os aeroportos europeus receberam um recorde de 2,6 bilhões de passageiros em 2025, enquanto para 2026 a ACI Europe projeta um crescimento adicional de aproximadamente 3,3%.
Em escala global, a Organização da Aviação Civil Internacional prevê que o tráfego aéreo alcance 12,4 bilhões de passageiros por ano até 2050, quase três vezes o nível registrado em 2024. Diante desse cenário, a coalizão sustenta que a digitalização da identidade pode se tornar uma ferramenta importante para evitar que o crescimento do número de passageiros resulte necessariamente em mais filas, controles e ampliações físicas dos terminais. No entanto, o setor reconhece que o ponto crítico será a confiança. O manifesto propõe que os dados biométricos sejam utilizados apenas para finalidades específicas, com períodos de retenção proporcionais, sistemas de criptografia, controles de acesso, auditorias e possibilidade de revogação do consentimento.
A iniciativa também defende o uso de programas-piloto e ambientes regulatórios controlados para testar novas soluções antes de sua implementação em maior escala. A intenção é permitir que autoridades, empresas e sociedade civil avaliem conjuntamente benefícios, riscos e
mecanismos de proteção.
Embora o manifesto seja direcionado ao marco regulatório europeu, a discussão vai além da região e amplia sua influência para mercados como a América Latina, onde diversos aeroportos já avançam em processos de reconhecimento facial, controles automatizados e digitalização de fronteiras.




