Um levantamento da Anac aponta que, entre maio e junho, a malha aérea nacional perdeu ao menos 6.271 voos na comparação com o fim de fevereiro, antes do choque do petróleo.
A escalada do querosene de aviação (QAV), atribuída à crise energética provocada por conflitos no Oriente Médio, começou a aparecer com força na conectividade do país: mais de 6,2 mil voos saíram da programação das companhias aéreas em apenas dois meses.
Um levantamento da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), que compara o cenário atual ao do fim de fevereiro — antes do salto nos preços do petróleo —, indica que o setor perdeu 3.596 voos em maio e tem 2.675 cortes previstos para junho, totalizando 6.271 operações a menos no período.
O movimento é explicado pela dinâmica de custos do setor. O QAV é o principal item variável das companhias e pode chegar a 45% dos custos operacionais. Quando o combustível sobe abruptamente, operar cada voo fica mais caro. Como nem sempre é possível repassar esse aumento de imediato às tarifas sem perder demanda, a resposta mais comum é reduzir frequência e retirar do mapa as rotas de menor rentabilidade.
Na fotografia por estado, os dados mostram um impacto disseminado. Pernambuco aparece entre os mais afetados proporcionalmente: em maio, a programação recuou 12,8% (menos 427 voos), e em junho a queda segue alta, com -11,6% (mais 378 voos a menos). A Bahia registrou retração de 10,1% em maio (corte de 362 voos). Goiás perdeu 9,6% da programação, o Espírito Santo teve redução de 9%, e o Rio de Janeiro viu desaparecer 514 voos apenas em maio.
Em números absolutos, São Paulo lidera as perdas, com 844 voos retirados em maio, seguido pelo Rio de Janeiro (514). Pernambuco, Bahia e Distrito Federal vêm na sequência. Somados, SP e RJ perderam mais de 1.350 voos em um único mês, evidenciando que o ajuste também atinge os principais mercados do país — com reflexos sobre conexões, disponibilidade de assentos e preços.
Entre as empresas, a Gol foi a que mais enxugou operações: retirou 1.840 voos em maio e outros 1.201 em junho, totalizando 3.041 cortes. A Azul vem logo atrás, com 1.243 voos a menos em maio e 973 em junho, somando 2.216. A Latam fez um ajuste menor, com 498 em maio e 537 em junho. Juntas, Gol e Azul respondem por mais de 86% da redução total mapeada pela Anac.
O tamanho do choque fica mais claro na curva do combustível. Dados da ANP apontam que o preço do QAV saiu de R$ 3,35 por litro em meados de fevereiro para R$ 6,65 por litro no início de maio — uma alta de 98,4% em menos de três meses. Nesta segunda-feira (1º), a Petrobras anunciou uma redução de 14,2% no preço do combustível, após uma sequência de reajustes: +9% em março, +55% em abril e +18% em maio.
Além dos cortes na oferta, a pressão chega ao passageiro. Dados oficiais citados pela Anac indicam que, em março, houve alta de 17,8% nas tarifas em relação a março de 2025 e aumento de 14,5% ante o mês anterior. Com menos voos disponíveis e custos ainda elevados, o risco é de um ciclo em que a malha diminui, a concorrência por assentos aumenta e as tarifas demoram mais a ceder.
O contexto de abastecimento também pesa: cerca de 21% do QAV consumido no Brasil é importado, e a distribuição é descrita como altamente concentrada. Segundo cálculos do Ministério de Portos e Aeroportos, apenas em abril as companhias tiveram um custo adicional de R$ 719 milhões devido ao preço do QAV; somando maio, a cifra extra chegaria a R$ 1,84 bilhão.



